O país improvável que virou um polo da corrida global da IA
Em uma área do sul da Malásia antes ocupada por plantações de óleo de palma e abacaxi, mais de 15 guindastes se erguem sobre cerca de 40 hectares de terra escavada, onde a DayOne — empresa com raízes corporativas em uma das maiores operadoras chinesas de data centers — constrói um grande complexo. A poucos quilômetros dali, na borda de uma floresta tropical, centenas de trabalhadores finalizam outra instalação destinada a atender empresas chinesas de tecnologia.
Dentro desses data centers estarão alguns dos chips de inteligência artificial mais avançados do mundo. Produzidos pela Nvidia, esses semicondutores estão amplamente proibidos de serem exportados para a China pelas restrições impostas pelos Estados Unidos. As regras, porém, geralmente não impedem que empresas chinesas como a ByteDance, principal cliente da DayOne, acessem os mesmos chips em centros de dados localizados fora do território chinês. Essa distinção ajudou a transformar a Malásia, país de 35 milhões de habitantes, em uma fronteira improvável do boom da IA, atraindo empresas por terrenos baratos, energia relativamente acessível e proximidade de cabos submarinos que conectam a China ao restante do mundo.
O país conquistou uma posição rara em uma indústria cada vez mais dividida entre Estados Unidos e China: em vez de escolher um lado, decidiu receber os dois. A transformação é mais evidente em Johor, estado no sul do país que se tornou o epicentro do movimento. Atualmente, 65 projetos de data centers estão em operação, construção ou em diferentes fases de aprovação. As instalações já consomem mais de 2 gigawatts de eletricidade, o suficiente para abastecer mais de um terço das residências malaias. Caso todos os projetos planejados sejam concluídos, a demanda poderá superar 10 gigawatts, segundo a agência estadual Invest Johor.
Gigantes americanas como Microsoft, Google e Oracle investem pesadamente no país para se aproximar dos clientes asiáticos, enquanto a Malásia também se tornou um polo de processamento de dados para empresas chinesas como ByteDance, Tencent e Alibaba. Em alguns parques industriais de Johor, infraestrutura voltada para companhias americanas e chinesas é construída praticamente lado a lado. O boom começou por volta de 2021, após Singapura proibir novos projetos de data centers devido a restrições energéticas, levando as empresas a buscar terrenos do outro lado da fronteira.
Autoridades americanas acompanham de perto o papel do Sudeste Asiático como centro de data centers voltados para empresas chinesas. Um relatório distribuído dentro do governo dos EUA identificou participação direta ou indireta chinesa em 38 dos 128 projetos de data centers existentes na região. A DayOne alertou investidores neste mês que novas restrições americanas ao acesso remoto a poder computacional por meio de países como a Malásia podem reduzir a demanda e afetar seus resultados financeiros. Autoridades malaias também começaram a questionar o ritmo de expansão do setor e adotaram uma política que alguns classificaram como uma moratória informal para novos data centers: pelas novas regras, apenas instalações com fornecimento próprio de energia e fontes independentes de água para resfriamento poderão receber aprovação.
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