O futuro da favela não cabe na urna
Em artigo publicado no portal Pragmatismo Político, a bailarina e gestora cultural Tuany Nascimento, moradora do Morro do Adeus, no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, defende que o futuro das favelas não se resume ao voto. Ela se apresenta como terceira geração de uma família de mulheres negras que cresceu e vive no território e afirma que olhar para a favela exige reconhecer o que ela produz: artistas, trabalhadores, empreendedores, conhecimento, redes de cuidado e soluções cotidianas, muitas vezes antes da chegada de políticas públicas.
Nascimento lista o que deseja para a comunidade: escola de qualidade, cultura, esporte, saúde, saneamento, mobilidade, moradia digna e segurança. Também cobra que moradores de favela ocupem espaços de decisão, como universidades, empresas, equipamentos culturais, secretarias, conselhos e espaços de poder. Para ela, sair da favela não deveria significar deixá-la para trás, mas abrir caminho para que outros cheguem.
A autora relaciona a discussão ao calendário eleitoral. Segundo o texto, em outubro os eleitores voltam às urnas e, no dia 4, mais de 158 milhões de brasileiros estarão aptos a votar nas Eleições Gerais de 2026, escolhendo presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual, em voto direto e secreto. Ela critica a antecipação da disputa em torno do voto alheio e propõe outra pergunta: antes de saber em quem cada um vota, saber o que se quer para o lugar onde se vive.
O texto cita ainda dados do Censo 2022, segundo os quais o Brasil tem mais de 16 milhões de pessoas vivendo em Favelas e Comunidades Urbanas. Para Nascimento, esse contingente representa histórias, necessidades, talentos e possibilidades, e o desafio é que essa população se reconheça como parte da sociedade, e não à margem dela. A autora define democracia como participação, organização, cobrança e responsabilidade, e não apenas o momento de apertar uma tecla na urna.
Nascimento é fundadora da Na Ponta dos Pés, organização que há mais de uma década usa a arte, especialmente a dança, como instrumento de formação, pertencimento e criação de futuros para crianças e jovens da favela. Ela encerra o artigo afirmando não acreditar em uma favela que precise esperar ser salva, mas em uma favela ouvida e respeitada pelas políticas públicas e capaz de reconhecer o próprio poder de votar, escolher, cobrar, ocupar, criar e voltar.
Esta matéria foi publicada primeiro em Pragmatismo Político e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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