Mesmo com 'Exército' de Janones, esquerda não tem força digital do bolsonarismo, diz Marcos Nobre
O professor de filosofia política Marcos Nobre, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), avalia que o campo da esquerda não dispõe de uma estrutura digital equivalente à do bolsonarismo. Diretor-geral do Centro para Imaginação Crítica do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CCI/Cebrap), ele organizou, ao lado da professora Ana Claudia Teixeira, o livro que apresenta a tese do "Partido Digital Bolsonarista" (PDB).
Segundo Nobre, o PDB é uma nova forma de partido que nasce digital, sem CNPJ nem registro na Justiça Eleitoral, mas que se estrutura como uma legenda: tem hierarquia, organização, mobilização, engajamento, coesão, agenda e projeto de poder. A agremiação se alinha a partidos tradicionais, da direita ao centrão, para eleger políticos e obter acesso a recursos partidários. "A gente pode dizer, sim, que o PDB é o maior partido do Congresso", afirma o professor.
Do outro lado, a esquerda aparece organizada em "ilhas", ainda tentando incorporar o algoritmo à sua estratégia. Para Nobre, mesmo deputados surgidos nas redes sociais, como Jones Manoel (PSOL-PE) e Ana Elisa (PT-MG), não indicam a existência de um partido digital equivalente nesse campo. "Existe algum grau de articulação, mas é mais parecido com um arquipélago do que com um partido", explica.
O professor também descarta que o canal de WhatsApp Exército de Lula, criado e promovido pelo deputado André Janones (Rede-MG), represente o início de algo equiparável ao PDB. "A ideia de exército é uma ideia que nada tem que ver com a arquitetura das redes. É justamente um tipo de ação que pode ter muito efeito numa eleição, pode ser importante, mas não pode ser uma estratégia de médio e longo prazo. É uma estratégia de curtíssimo prazo", diz. Ele acrescenta que não vê como a iniciativa poderia continuar após a eleição, "a não ser como um canal de transmissão do próprio Janones, porque o PT não aceitaria esse comando paralelo de alguém que não está submetido à hierarquia do partido".
Na avaliação de Nobre, a atual campanha pode representar um "divisor de águas" na forma como a esquerda enxerga o papel das redes na política. "A impressão que eu tenho é que a consciência (na esquerda) do grau de organização da extrema-direita está chegando de uma maneira como não tinha chegado antes", afirma. O professor sustenta ainda que o bolsonarismo se tornou um movimento que não depende da figura de Bolsonaro ou de sua família para existir, embora a família lidere hoje a organização — que, segundo ele, pode vir a ser ocupada por outras lideranças.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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