“Magnifica Humanitas”: vivemos “ainda à luz do humano ou à luz da máquina?”
Teóloga: encíclica de Leão XIV “volta a colocar a humanidade num lugar central”
A teóloga Sónia Monteiro, professora auxiliar convidada da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, fez uma primeira leitura da encíclica “Magnifica Humanitas”, primeiro documento papal de Leão XIV, dedicado à proteção da pessoa humana na era da inteligência artificial (IA). Para ela, o texto não traz respostas prontas, mas levanta uma questão central: “O que é que significa ser humano?”.
Em comentário ao documento, a professora destacou que a encíclica tem uma dimensão política e social, mas também uma “dimensão antropológica radical”. “Quem somos? O que nos distingue? E como cuidarmos dessa humanidade no presente e no futuro?”, questiona. Sónia Monteiro relaciona o novo texto com a “Laudato si”, do Papa Francisco, observando que, se na encíclica anterior o foco estava na criação e na saída de um antropocentrismo, agora o humano volta ao centro porque “está em causa”.
A teóloga alerta para o risco de agravamento das desigualdades globais diante do avanço tecnológico. “Como é que os pobres e os povos mais afetados sofrem com estes avanços tecnológicos?”, pergunta. Ela cita o consumo energético e as transformações no mundo do trabalho como áreas de atenção, lembrando que os avanços introduzem “ritmos completamente acelerados” e novas formas de trabalho, enquanto pessoas ficam sem emprego. “Há aqui imensas questões que não estão a ser cuidadas e que poderão agravar ainda mais as desigualdades que existem”, afirma.
Sónia Monteiro também sublinha a necessidade de desacelerar o ímpeto do progresso, ecoando um discurso já presente entre investigadores e grandes empresas de tecnologia. “Que o ímpeto do progresso, da riqueza, do enriquecimento, a tal Torre de Babel, não nos faça tomar passos para os quais não estamos preparados”, diz. A professora defende que a Igreja Católica reivindica seu lugar na construção do espaço público, em diálogo com crentes, não crentes, Estados, instituições e empresas.
Na apresentação da encíclica, em maio, Leão XIV apelou a uma mobilização global para travar o potencial destrutivo da IA e defendeu um escrutínio moral rigoroso sobre os avanços tecnológicos. O Papa comparou a ameaça algorítmica aos perigos do armamento nuclear e afirmou ter recebido “relatos muito preocupantes de algoritmos que podem bloquear o acesso à saúde, ao emprego e à segurança com base em dados contaminados por preconceito e injustiça”. Ele destacou que a Igreja deseja participar do diálogo sobre a IA “com humildade e franqueza”, contribuindo com “uma sabedoria sobre o humano que o nosso tempo necessita desesperadamente”.
Esta matéria foi publicada primeiro em Religião · Vatican News PT e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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