Indústria da solidão: os serviços que oferecem companhia a chineses solitários
O aumento da solidão nas cidades chinesas tem impulsionado o surgimento de serviços profissionais voltados a oferecer companhia e apoio a pessoas isoladas. O fenômeno é descrito como uma "indústria da solidão", que cresce para preencher lacunas no cotidiano de quem vive sozinho, segundo relato da professora Teresa Kuan, da Universidade Chinesa de Hong Kong.
Entre as causas apontadas para o isolamento estão a migração de trabalhadores do campo para os centros urbanos, que deixam para trás redes de apoio, e a mudança de estudantes formados para outras regiões do país em busca de emprego. A professora afirma que a situação é exacerbada pela estrutura da sociedade e pelas formas de interação entre as pessoas.
Um dos casos citados é o de Yang, de 91 anos, que mora na periferia de Pequim. Após a morte do marido, ela passou a se sentir tão sozinha que chegou a considerar a possibilidade de praticar eutanásia voluntária. Com glaucoma e a visão cada vez mais deteriorada, tinha dificuldade até para tarefas básicas, como ajustar os controles do ar-condicionado. Sua rotina mudou com o serviço de Wang Yingwei e sua equipe de entregas em patinetes elétricos, que passaram a visitá-la duas vezes por dia com comidas quentes, mas cuja ajuda foi além disso.
Wang define sua equipe como "filhos comunitários" e diz que o trabalho consiste em se colocar no lugar das pessoas idosas e considerar suas necessidades. Ele relata que resolve problemas simples, como fornecer água filtrada ou substituir peças de chuveiros com defeito. Segundo ele, os serviços custam menos da metade da contratação de um cuidador. Ex-vendedor de telefones celulares, Wang afirma ter fundado a empresa para ajudar os idosos a permanecer em seus lares, inspirado na experiência do próprio sogro, que tinha Alzheimer e precisou ingressar em uma casa para idosos.
Os serviços do setor não se limitam às visitas a domicílio. Liu Yanyan, de 23 anos, trabalha como "acompanhante médica", levando pacientes ao médico ou buscando medicamentos e resultados de exames em hospitais da capital. Ela conta que muitos clientes são jovens que se mudaram para Pequim para fazer carreira e evitam pedir companhia a colegas por causa do conceito de reciprocidade social na cultura chinesa. Há também empresas especializadas em trilhas, como a de Wang Zhoutao, que oferece apoio emocional a quem deseja escalar a montanha Huangshan. Ainda não há dados confiáveis sobre o tamanho do setor, mas, segundo os operadores, houve crescimento explosivo nos últimos anos. Em 2025, a corretora Sinolink avaliou o segmento em cerca de US$ 7,4 bilhões.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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