Igreja e a crise em Ceuta: a dignidade não tem fronteiras
Igreja na Espanha age em Ceuta e coloca a dignidade humana acima das fronteiras
Diante da crise migratória em Ceuta, a Igreja Católica na Espanha tem se destacado por uma atuação pautada em palavras claras e ações concretas, recolocando o fator humano no centro do debate. Após o desembarque maciço de migrantes na cidade autônoma, o padre Fernando Redondo Pavón, diretor do Departamento de Migração da Conferência Episcopal Espanhola, manifestou profunda preocupação com os movimentos em massa e defendeu respostas baseadas em direitos que considerem a dignidade humana. "Os migrantes não devem ser objeto de exploração política. A dignidade não conhece fronteiras e ninguém a perde por ter cruzado uma", afirmou.
Na prática, a Diocese de Cádis-Ceuta disponibilizou suas instalações de acolhimento às autoridades e aos migrantes, enquanto as paróquias de Ceuta destinaram as ofertas das celebrações eucarísticas para apoiar os recém-chegados. O padre missionário comboniano Enrique Bayo Mata, diretor da revista espanhola Mundo Negro, destacou a mobilização imediata: "Vemos nossos irmãos e irmãs antes de vermos tratados e fronteiras. A prioridade é cuidar das pessoas que estão sofrendo, algo muito mais importante do que Schengen". Segundo ele, a Cáritas, os Scalabrinianos e a diocese fizeram tudo o que puderam para ajudar. O Centro Santo Antônio, administrado pelos Padres Scalabrinianos e com capacidade para 10 pessoas, chega a abrigar mais de 40 migrantes.
Entre os milhares que tentaram entrar em Ceuta, há um número expressivo de menores, alguns com pouco mais de 13 anos. A jornalista Soraya Aybar Laafou, colaboradora do Mundo Negro que atua na cidade, relatou ter encontrado muitas crianças e adolescentes marcados pela decepção. "Nenhuma reclamou de abuso, mas porque foram enganadas", disse. Ela explica que, nas semanas anteriores ao desembarque, vídeos, mensagens e fotos criados com inteligência artificial circularam nas redes sociais, oferecendo uma imagem distorcida da Europa. Ao retornarem, muitos jovens alertavam outros do outro lado da fronteira: "É tudo mentira, parem enquanto podem, não arrisquem suas vidas à toa".
Ainda segundo a jornalista, centenas de migrantes permanecem na parte espanhola de Ceuta aguardando análise de pedidos de asilo, incluindo sudaneses, palestinos, iemenitas, sírios e marroquinos. Muitos perderam os telefones durante a travessia ou não conseguem recarregar as baterias, ficando sem contato com famílias que não sabem se estão vivos. Ela aponta ainda um desequilíbrio na raiz do problema: um emprego no lado espanhol paga oito vezes mais do que no lado marroquino, a poucos quilômetros de distância. "É a desigualdade entre África e Europa, e essa é a raiz de tudo. Um mundo mais justo e fraterno é a solução, certamente não a militarização das fronteiras", concluiu.
Esta matéria foi publicada primeiro em Religião · Vatican News PT e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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