Guerra colide com ambições da Arábia Saudita em encontro de potências do petróleo
Do lado de fora do centro de exposições de Riad, diplomatas estrangeiros receberam um alerta sobre um possível míssil rumo à capital saudita. Dentro do pavilhão, o aviso era outro: os participantes deveriam ocupar seus lugares, pois o ministro da Energia da Arábia Saudita, príncipe Abdulaziz bin Salman, estava prestes a subir ao palco. O contraste marcou o Congresso Mundial de Energia (WPC Energy Congress), iniciado no domingo e programado para seguir até sexta-feira (16).
A Arábia Saudita enfrenta uma forte escalada de ataques com mísseis e drones lançados pelos rebeldes houthis do Iêmen, aliados do Irã. Ataques ao Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riad, mataram ao menos 17 pessoas e deixaram centenas de feridos, e as autoridades suspenderam as operações comerciais do terminal por tempo indeterminado. Participantes do congresso precisaram redirecionar voos para outros aeroportos e até outros países da região. Alguns executivos, incluindo os CEOs da Exxon, Shell, Chevron e BP, cancelaram suas participações.
Apesar das ameaças, as autoridades sauditas tentaram transmitir uma mensagem de normalidade durante o evento. "A palavra 'medo' não existe no dicionário saudita", afirmou Abdulaziz em tom desafiador na segunda-feira. O porta-voz militar dos houthis, Yahya Saree, advertiu que qualquer ataque contra alvos em Sanaa será respondido "com uma réplica dura e dolorosa" em Riad.
A guerra envolvendo o Irã, agora em seu oitavo mês, provocou mudanças profundas na ordem econômica e de segurança do Oriente Médio. Portos dos Emirados Árabes Unidos essenciais para o comércio global ficaram expostos a uma nova frente marítima do conflito, e no Catar instalações estratégicas de gás natural liquefeito sofreram danos significativos. Os sauditas perderam grande parte do acesso ao Estreito de Ormuz depois que o Irã passou a controlar militarmente a passagem; ao tentarem redirecionar os embarques por um oleoduto até o Mar Vermelho, milícias apoiadas por Teerã no Iraque atacaram a infraestrutura. O governo saudita e a estatal Aramco conseguiram manter o fluxo de petróleo aos mercados internacionais, em processo caro, mas compensado pela disparada dos preços.
Os ataques dos últimos dias expuseram riscos crescentes não apenas para a segurança do reino, mas também para o projeto saudita de se consolidar como centro financeiro global. Ainda neste mês, Riad sediará a conferência anual de investimentos promovida pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, conhecida como Future Investment Initiative (FII) e apelidada de "Davos do Deserto", uma das principais vitrines da Vision 2030. Os organizadores confirmaram nesta terça-feira que a conferência será realizada conforme o planejado, com medidas reforçadas de segurança e apoio logístico. No congresso de energia, a mensagem central do governo foi a segurança energética: Abdulaziz classificou Riad como "a capital da segurança energética" e disse que o país planeja ampliar a capacidade do oleoduto Leste-Oeste para cerca de 10 milhões de barris por dia, ante o limite atual de 7 milhões. "A segurança energética não pode ser considerada garantida", afirmou.
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