Grande revisão científica aponta falta de provas para uso medicinal da maconha
Uma revisão que analisou 5.774 estudos científicos publicados ao longo de 45 anos concluiu que faltam evidências robustas para o uso de canabinoides, derivados da maconha, no tratamento de transtornos mentais comuns, como depressão e ansiedade. O levantamento ocorre em um momento de expansão regulatória no Brasil, após a Anvisa liberar o cultivo da planta para fins medicinais e de pesquisa científica.
Segundo a análise, não há fundamentação científica confiável para o uso da maconha medicinal em casos de ansiedade, depressão, transtorno bipolar e estresse pós-traumático. Compostos como THC e CBD, amplamente citados, não apresentaram efeitos clinicamente significativos para essas condições psiquiátricas. Em casos de dependência de cocaína, o estudo identificou efeito negativo, com aumento do desejo pela droga. O grau de confiança nas poucas evidências favoráveis para outras doenças foi classificado como baixo ou muito baixo.
Os resultados sólidos de benefício terapêutico se restringem a condições médicas específicas e graves, como as síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut, formas raras de epilepsia infantil de difícil controle. Fora desses cenários neurológicos, as indicações associadas à cannabis medicinal, especialmente na psiquiatria e nos transtornos de humor, ainda carecem de dados que confirmem eficácia superior aos métodos tradicionais.
A pesquisa também apontou riscos: pacientes que usam canabinoides têm chance significativamente maior de sofrer efeitos adversos em comparação aos que recebem placebo. A estimativa é de que um em cada sete pacientes apresente problemas como boca seca, náuseas, diarreia e tontura. Eventos graves não mostraram diferença estatística relevante, mas a frequência de desconfortos comuns levanta alerta sobre a segurança do uso disseminado sem comprovação clara de benefício.
No Brasil, o cenário mudou em agosto de 2026, após normas da Anvisa e decisões do STJ entrarem em vigor, permitindo que empresas e instituições solicitem autorização para cultivar Cannabis sativa em território nacional para fins medicinais e científicos. O movimento é impulsionado por um mercado global que deve atingir US$ 47,5 bilhões até 2030, mas o avanço jurídico e econômico ocorre em ritmo mais veloz do que a produção de provas científicas, gerando descompasso entre o que é permitido por lei e o que é comprovado pela medicina.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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