Fiagros se reinventam na crise, com 20% de desconto e dividendo de 15%
Os Fundos de Investimento no Agro (Fiagros) enfrentam um ano de turbulência, marcado pelo avanço da inadimplência no setor, pelos juros altos e pelos efeitos climáticos e de custos sobre os produtores. Apesar do cenário adverso, gestoras se preparam para novas captações, adotando estratégias como garantias reforçadas e reservas maiores para absorver perdas. Segundo a Anbima, a classe registrou captação líquida de R$ 8,5 bilhões no ano, atraindo pessoas físicas pela isenção de Imposto de Renda sobre os rendimentos.
O desgaste do setor aparece no preço das cotas negociadas em bolsa. Levantamento da gestora Éxes Investimentos com 28 Fiagros de crédito mostra que esses fundos são negociados, em média, a cerca de 77% do valor de seus ativos, um deságio de 23%, com dividend yield ao redor de 15,6% ao ano. "Se você comprasse hoje todos os fundos do mercado, estaria levando notas de R$ 10 por R$ 7,70, e ainda teria um rendimento de mais de 15% ao ano", afirma Artur Carneiro, sócio e fundador da Éxes. Ele pondera que cada investidor precisa avaliar o portfólio do gestor para verificar se os riscos estão bem precificados.
Diante da queda das cotas, algumas casas optaram por manter a distribuição de dividendos estável e reforçar reservas. O Éxes Araguaia (AGRX11), Fiagro imobiliário de papel concentrado em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), paga quase 19% ao ano, segundo Carneiro. O fundo mantém reserva de lucros equivalente a quatro meses de dividendos e está com o maior caixa desde a criação, mais de 20% do patrimônio, ou R$ 40 milhões, para buscar oportunidades. A carteira evita títulos corporativos após o caso AgroGalaxy, que provocou perda de 5%. "Foi a empresa de melhor classificação de risco em que investimos e nosso maior erro", admite. O fundo chegou a ficar dois meses sem distribuir dividendos e provisionou 99% da exposição.
Para operar no atual ciclo, as gestoras exigem garantias mais robustas. "Hoje trabalhamos com garantias imobiliárias, com 200%, 300% em cima da avaliação, ou seja, se a terra vale R$ 30 milhões, liberamos R$ 10 milhões", diz Pedro Da Matta, CEO da Audax Capital. O custo das operações atingiu, em média, de 18% a 20% ao ano, cerca de 130% a 140% do CDI. A conta chega ao tomador em um momento de aperto no crédito bancário. O Grupo IOX prepara uma captação de R$ 100 milhões para crédito privado do setor, mirando também empresas em recuperação judicial por meio do DIP financing, linha autorizada pela Justiça com prioridade de pagamento em caso de falência.
Especialistas apontam que a insegurança jurídica e a dificuldade de execução de garantias são entraves estruturais. "Não adianta achar que a jurisprudência vai ser unânime, que o STJ vai criar uma jurisprudência pacífica, pois toda hora tem casos sendo rejeitados", afirma Luiza Oswald, sócia da Leto Capital. Para Julia Bretz, da mesma casa, os Fiagros reúnem um ativo e um passivo que não se encaixam: "De um lado você tem um investidor que espera estabilidade e de outro um setor que, por natureza, é inseguro." O desafio, avaliam gestores, é o setor reencontrar fontes de financiamento em um momento em que os bancos reduziram a oferta de crédito.
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