Escutar para cuidar: o papel da Igreja diante dos sofrimentos do nosso tempo
Escutar para cuidar: a Igreja como rede de apoio em tempos de solidão
Em um cenário marcado pela hiperconexão e, paradoxalmente, pelo isolamento afetivo, a Igreja Católica tem reforçado a cultura da escuta como ferramenta pastoral. A proposta, que ganhou destaque no processo sinodal recente, é vista como essencial para acolher pessoas que chegam às paróquias em busca de algo mais raro do que conselhos: uma presença disponível e sem julgamentos. A perspectiva também é reforçada na primeira encíclica do Papa Leão XIV, dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial, que convida ao diálogo e à construção de uma sociedade mais humana.
Diante da alta demanda, muitas paróquias perceberam que o atendimento sacerdotal tradicional não era suficiente. Foi esse o ponto de partida para a criação da Pastoral da Escuta, iniciativa idealizada pelo padre passionista José Carlos Pereira. A prática surgiu quando ele era pároco no interior de São Paulo e notou que a maioria das pessoas que procuravam a igreja diariamente não buscava a confissão, mas alguém que as ouvisse. O que começou com uma pequena equipe de leigos em uma única paróquia se expandiu para outras comunidades e dioceses, sendo sistematizado em livro para orientar novas implantações.
O Cônego Ramon Ferreira, pároco em Silvianópolis (MG) e especialista em psicanálise, observa que é comum a Igreja ser o primeiro apoio em sofrimentos de ordem espiritual, psíquica e até civil. Ele ressalta a confiança depositada no sacerdote, especialmente pelo sigilo sacramental, mas alerta para a necessidade de reconhecer os limites do acompanhamento espiritual. “Uma depressão não é falta de fé. Uma crise de ansiedade não significa que a pessoa reza pouco”, afirma, defendendo que fé e ciência não são rivais, mas olhares complementares no cuidado integral da pessoa.
Na Diocese de Taubaté (SP), a psicóloga Raquel Irene de Macedo coordena a Pastoral da Escuta no Santuário Santa Teresinha. Ela explica que o serviço oferece atendimentos individuais, sigilosos e por busca espontânea, com horário delimitado. A preparação dos voluntários é considerada o pilar da iniciativa, exigindo formação humana e espiritual contínua para sustentar o silêncio sem julgar ou aconselhar. “Muitas vezes, a pessoa não precisa de uma resposta pronta, mas de uma presença disponível, respeitosa e verdadeiramente interessada em escutá-la”, destaca a coordenadora.
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