Como Mãe Menininha do Gantois se tornou a maior mãe de santo do Brasil e aconselhou de Pelé a Jorge Amado
Em 10 de fevereiro de 1984, políticos, artistas, escritores e intelectuais se reuniram no terreiro do Gantois, em Salvador, para celebrar os 90 anos de Maria Escolástica da Conceição Nazaré, a Mãe Menininha do Gantois (1894-1986). Entre os presentes estavam Antônio Carlos Magalhães, Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia e Jorge Amado. A data marca também os 40 anos de sua morte, completados nesta quinta-feira (13/8).
Menininha se tornou a terceira ialorixá da história do Gantois em fevereiro de 1922, aos 28 anos, sucedendo a tia-avó Pulquéria Maria da Conceição. Ela ocupou o posto por 64 anos, um recorde. Bisneta de Maria Júlia da Conceição Nazareth, fundadora do terreiro criado em 1849, Menininha assumiu a liderança em um cenário conturbado: sua mãe, a natural sucessora, morreu durante o período de luto pela morte da então ialorixá.
Sua trajetória foi marcada pela resistência à perseguição às religiões de matriz africana. Para sobreviver, ela se declarava católica e frequentou missas até o fim da vida, sendo devota de Santa Escolástica. Foi pioneira ao garantir, junto aos religiosos católicos da Bahia, o direito de participar da igreja vestindo trajes típicos do candomblé. A situação dos terreiros só melhorou em 1976, quando o então governador baiano Roberto Santos sancionou decreto liberando as casas de candomblé do licenciamento previsto pela legislação de "jogos, costumes e diversões públicas".
Com o tempo, Mãe Menininha conquistou influência sociopolítica e passou a ser procurada por autoridades, artistas e esportistas antes de grandes decisões. Sua casa foi frequentada por músicos como Gilberto Gil, atletas como Pelé, Roberto Dinamite e Djalma Santos, e políticos como Luiz Inácio Lula da Silva, Paulo Maluf, Adhemar de Barros, Getúlio Vargas, João Goulart e João Baptista Figueiredo. Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil destacam seu papel como conciliadora e sua contribuição para a inserção do candomblé na sociedade brasileira.
Casada com o advogado Álvaro MacDowell de Oliveira, com quem teve duas filhas, Cleusa — que a sucedeu no comando do terreiro — e Carmem, Menininha decidiu que o marido não poderia morar no Gantois. Ele, porém, atuou nas lutas empreendidas por ela, especialmente contra a Lei de Jogos e Costumes de 1930, que enquadrava práticas religiosas africanas e resultava em batidas policiais em terreiros. Além da liderança religiosa, Menininha trabalhou como quituteira e costureira ao longo da vida.
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