Como a guerra aumentou a violência sexual e os casamentos forçados de meninas e mulheres em Gaza
Relatórios recentes do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) apontam um forte aumento da violência contra mulheres e meninas na Faixa de Gaza, incluindo casos de casamento precoce e forçado. Um dos documentos, elaborado com dados reunidos por dez organizações, afirma que a crise prolongada no território devastado pela guerra "criou condições que expõem mulheres e meninas a riscos cada vez maiores de violência de gênero". O relatório alerta ainda para uma "forte escalada" dos casamentos precoces e forçados no segundo trimestre deste ano — práticas que a ONU considera formas de violência de gênero.
Outro relatório reúne depoimentos de 230 mulheres que vivem em campos superlotados para deslocados na Cidade de Gaza e em Khan Younis e descreve episódios de violência que elas sofreram ou testemunharam. Uma mulher que vive em uma escola transformada em abrigo relata que vítimas de estupro muitas vezes são obrigadas a se casar com os próprios agressores para evitar a vergonha e o escândalo. "Quando um caso de estupro é descoberto em uma escola, no dia seguinte há casamento e comemoração no local", diz ela. Outra entrevistada conta que, durante o período de fome, um homem entregou a filha de 14 anos em casamento em troca de dois sacos de farinha. Seis mulheres em diferentes campos de deslocados relataram situações semelhantes.
Os casos registrados de casamento precoce e forçado aumentaram 123% no segundo trimestre deste ano em relação aos três primeiros meses, segundo o UNFPA. Nos casos de casamento infantil, as meninas tinham entre 12 e 17 anos. "As tendências são chocantes", afirma Nestor Owomuhangi, representante do UNFPA para a Palestina. Segundo ele, as condições extremas enfrentadas por Gaza nos últimos três anos — com dezenas de milhares de mortos, destruição em larga escala e sucessivos deslocamentos — romperam estruturas sociais básicas. "Tudo se deteriorou... não há sistema."
Em uma sociedade conservadora, a convivência com desconhecidos e a falta de privacidade nos abrigos têm sido acompanhadas por mais relatos de assédio e abuso sexual. Muitas famílias veem o casamento das filhas como forma de protegê-las e preservar sua reputação. O relatório do UNFPA, baseado em pesquisas realizadas no fim de 2025 e no início de 2026, mostra que meninas que ficaram órfãs durante a guerra estão especialmente vulneráveis. Uma mulher entrevistada em um campo na Cidade de Gaza conta que foi ao casamento de duas meninas de sua família, de apenas 14 e 15 anos: "Os tios as casaram muito novas. Sabe por quê? Porque o pai e a mãe delas foram martirizados, e os tios queriam se livrar da responsabilidade e das despesas".
O Women's Affairs Center in Gaza, ONG palestina que trabalha em parceria com o UNFPA, e outros grupos de apoio registraram casos graves de meninas casadas que sofreram abusos e, muitas vezes, engravidaram. Segundo essas organizações, adolescentes muito jovens correm risco bem maior de sofrer abortos espontâneos e de dar à luz bebês com baixo peso do que mulheres adultas. "Estamos vendo um aumento enorme das gestações na adolescência por causa do casamento infantil", diz Owomuhangi. A violência sexual em Gaza continua fortemente subnotificada, principalmente por medo de estigma e represálias, e avaliações de segurança da ONU mostram que mulheres e meninas ficam particularmente expostas à noite, o que leva muitas a evitar os banheiros dos campos.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
Continue neste assunto
Comentários nesta matéria
Comentário público sobre este texto. Após envio, a redação analisa antes de publicar. Para proposta de pauta ou assuntos privados, use mensagem à redação na sua conta.
Ainda não há comentários publicados nesta matéria.
Sua avaliação desta matéria
Clique nas estrelas para avaliar — pediremos que entre com seu e-mail.
Entre com seu e-mail para comentar nesta matéria (enviamos um link rápido, sem cadastro longo).
Entrar para comentar