Chegamos ao ponto de ruptura entre Trump e Zelensky?
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nunca escondeu a antipatia pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, nem a afinidade com o presidente russo, Vladimir Putin. Ainda assim, Zelensky conseguiu preservar algum nível de apoio americano contra a Rússia, acompanhando negociações de paz lideradas pelos EUA que pouco avançaram e acumulando elogios a Trump por sua “forte liderança”. Agora, às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, vistas como um referendo sobre a presidência de Trump, a relação entre os dois parece próxima de um ponto de ruptura — com riscos para o governo americano, mas sobretudo para a Ucrânia, cujo Exército ainda depende de apoio operacional crucial dos Estados Unidos.
Para Kiev, os golpes vieram em sequência em uma única semana. Trump culpou a guerra travada pela Rússia contra a Ucrânia há quase cinco anos pela alta dos preços do diesel, em vez do que especialistas em energia apontam como a causa real: a guerra lançada por Trump contra o Irã. Ele suspendeu temporariamente sanções americanas sobre as vendas de diesel da Rússia, declarou unilateralmente um “cessar-fogo energético” no conflito — medida que, segundo a reportagem, beneficiou apenas a Rússia e prejudicou a Ucrânia — e passou a defender a escolha de um novo presidente ucraniano. No meio da semana, as Forças Armadas da Ucrânia relataram restrições repentinas e sem explicação ao uso do Starshield, versão militar do sistema de internet via satélite Starlink, essencial para as comunicações no campo de batalha. Elon Musk, CEO da SpaceX, responsável pelo Starlink, sugeriu que apenas os militares dos EUA e, em última instância, Trump poderiam limitar o uso do Starshield, e também passou a defender um novo presidente para a Ucrânia.
Após inicialmente evitar o confronto, um Zelensky visivelmente irritado afirmou sentir-se traído ao ver Trump se alinhar abertamente com um líder russo que continua matando civis ucranianos. Desafiando a declaração de cessar-fogo, anunciou que a Ucrânia retomaria os ataques a refinarias de petróleo russas. Questionado pelo jornalista Piers Morgan se acreditava que a Ucrânia estava “perdendo” os Estados Unidos, respondeu de forma direta: “Sim”. Trump, então, afirmou à Newsmax que “Zelensky não é uma boa pessoa para negociarmos”. Na sexta-feira, na Bélgica, perguntado se estava sendo transformado em bode expiatório para os problemas de Trump, o ex-comediante sorriu de lado, fez uma longa pausa, ouviu a plateia rir e, inclinando-se ao microfone, respondeu: “Essa é a minha resposta.”
Segundo analistas, se a guerra verbal continuar, ajudará a Rússia e prejudicará tanto o governo Trump quanto a Ucrânia e os aliados europeus de Kiev. “É uma situação em que todos perdem”, disse Balazs Jarabik, ex-diplomata da União Europeia em Kiev e atualmente integrante da consultoria política R. Politik. O pior cenário para a Ucrânia seria uma suspensão da ajuda militar por parte de Trump e do Departamento de Defesa dos EUA. O país depende da rede Starshield financiada pelo Pentágono ao longo da linha de frente, assim como de informações de inteligência militar que alertam sobre ataques iminentes de mísseis e auxiliam no direcionamento de seus próprios ataques. Também depende dos EUA para armamentos adquiridos com ajuda de aliados, incluindo peças de reposição para caças F-16, mísseis antirradiação e interceptadores Patriot — atualmente a única arma disponível capaz de derrubar mísseis balísticos russos.
Nesta semana, a Ucrânia teve uma amostra do que pode acontecer caso o apoio americano seja interrompido. Autoridades ucranianas disseram que não receberam alertas prévios de parceiros internacionais — uma referência aos EUA — sobre duas ondas de ataques de mísseis contra Kiev na terça e na quarta-feira; os projéteis atingiram seus alvos praticamente ao mesmo tempo em que os alarmes antiaéreos eram acionados. Não está claro por que os avisos não ocorreram. Uma hipótese é que os mísseis utilizados fossem do tipo S-400, que percorrem curtas distâncias em altíssima velocidade, reduzindo o tempo disponível para alertas antecipados. Autoridades afirmaram ter recebido notificações de outros ataques balísticos. Um grupo bipartidário de senadores americanos já exigiu uma investigação sobre as restrições ao Starshield.
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