Casas Bahia: os sinais vermelhos que o mercado já identificava antes do pedido de RJ
Casas Bahia: os sinais vermelhos que o mercado já identificava antes do pedido de RJ
O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia pode ter pego alguns investidores de surpresa, mas quem acompanhava de perto o mercado de crédito já via sinais de estresse na varejista. Uma análise detalhada do comportamento das debêntures da companhia e dos seus indicadores de caixa mostra que a deterioração financeira foi diagnosticada e precificada muito antes do pedido de RJ.
Entre o terceiro trimestre de 2025 e o segundo trimestre de 2026, os releases da Casas Bahia contaram uma história de desalavancagem, citando alavancagem de 0,5 vez o Ebitda ajustado e caixa livre recorde. No entanto, segundo levantamento da plataforma Credit Guide, os dados contábeis enviados à CVM apontavam patrimônio líquido negativo de R$ 8,27 bilhões em 30 de junho, dívida líquida sem ajuste de R$ 5,74 bilhões e prejuízo líquido de R$ 13,2 bilhões em 12 meses. Nas contas gerenciais da companhia, esse mesmo prejuízo aparecia como R$ 2,65 bilhões.
O ponto central da divergência estava na forma como o fluxo de caixa era reportado. O caixa operacional parecia robusto, em R$ 16,7 bilhões, porque a DFC oficial registra o aumento do saldo a pagar com fornecedores como entrada na operação, enquanto a quitação junto ao banco sai na linha de financiamento. Ao devolver essa saída à operação, o Credit Guide revelou que a operação da Casas Bahia não gerou dinheiro: consumiu R$ 425 milhões em 12 meses, antes de capex e juros. Na mesma metodologia, o caixa livre de R$ 3,95 bilhões vira um consumo de R$ 622 milhões.
Dados levantados pela Idex Analytics a pedido do InfoMoney mostram como a percepção de risco tomou conta das debêntures da companhia. Até maio, o papel BHIAB1, com vencimento em 2028, já era negociado com desconto expressivo: o preço de venda ficava entre 35% e 50% do valor de face, enquanto a oferta de compra variava entre 22% e 35%. A partir de 20 de maio, o papel sofreu um "apagão" e ficou sem preço por quase três meses. Quando as cotações voltaram, nos dias 17 e 18 de agosto, o cenário já era de terra arrasada: o Ask caiu para 30% do valor ao par e o lado comprador desapareceu. No dia 19, o Ask despencou para 20%, com Bid residual de 3%. A única transação registrada foi um volume de R$ 1,3 milhão negociado a apenas 11,86% do valor ao par.
A queda de preço não foi isolada. Os preços indicativos da Anbima para as séries BHIAA0 e BHIAC0, estáveis em 30,83% do valor ao par até 14 de agosto, caíram para 26,8% e 26,4% no dia 18. Pelas carteiras abertas na CVM com referência de abril de 2026, 21 gestoras tinham posição em ativos do grupo, com concentração em quatro grandes casas.
Esta matéria foi publicada primeiro em Economia · InfoMoney e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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