Bolsonarismo se fortaleceu tanto que não precisa mais dos militares, diz especialista em Forças Armadas
O cientista político João Roberto Martins Filho, professor titular da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), avalia que o bolsonarismo se fortaleceu a ponto de não depender mais dos militares para eleger candidatos ou governar. Em entrevista à BBC News Brasil, ele afirma que a forte votação obtida por políticos bolsonaristas no primeiro turno da eleição sustenta essa leitura e que uma eventual gestão de Flávio Bolsonaro (PL) não deve ter protagonismo das Forças Armadas.
Segundo o pesquisador, os militares hoje estão de volta aos quartéis, e os da ativa deixaram de expressar opiniões políticas em público ou nas redes sociais. Ele credita a mudança a um comando firme, que determinou que não houvesse manifestações políticas, e lembra que, no governo Bolsonaro, o comando queria essa participação. Martins Filho ressalta, no entanto, que a mentalidade militar não mudou e que a votação em Flávio Bolsonaro entre os militares foi muito alta.
O especialista afirma que a experiência no governo anterior foi "extremamente negativa" para as Forças Armadas. Ele cita ocasiões em que, segundo sua avaliação, Jair Bolsonaro submeteu os militares a vexames, até o que chama de vexame maior: expô-los à tentativa de golpe. Hoje, assim como o ex-presidente, vários militares estão presos e condenados por articularem um golpe de Estado para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2023. Um levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que 6.157 militares da ativa e da reserva ocuparam cargos na gestão Bolsonaro.
Na avaliação de Martins Filho, Flávio Bolsonaro não deve nomear generais para a equipe de governo, ao contrário do pai. Ele observa que, para os militares, o senador já é um ponto favorável apenas por ser anti-Lula, e que, na hora decisiva, eles preferem os Bolsonaros ao petista. O pesquisador também aponta que as Forças Armadas mantêm forte crítica à China e voltaram a ver nos Estados Unidos uma alternativa preferencial de aliança, inclusive por causa da compra de equipamentos militares.
Professor da Ufscar desde 2015, Martins Filho dedicou a carreira ao estudo das relações entre militares e política, com livros como "O palácio e a caserna" (1995) e "Os militares e a crise brasileira" (2021). Ele coordenou o Arquivo de Política Militar Ana Lagôa entre 1996 e 2016 e foi o primeiro presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED), entre 2005 e 2008.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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