Armas, chicotes e referências ao nazismo: o que a extrema direita revelou após o primeiro turno
Episódios registrados após o primeiro turno das eleições presidenciais de 4 de outubro reacenderam o debate sobre violência simbólica, memória histórica e os riscos da naturalização do autoritarismo no Brasil. Em diferentes estados, cenas envolvendo armas, instrumentos associados à violência e referências ao nazismo passaram a ocupar o espaço público.
Em Parnamirim, na Região Metropolitana de Natal, uma criança de 9 anos foi filmada sobre um automóvel segurando um objeto semelhante a uma arma de fogo, durante comemoração de apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL). Vestido com camiseta verde e amarela, o menino dançava enquanto adultos acompanhavam a celebração. O pai afirmou que se tratava de um brinquedo, e não havia confirmação oficial de que fosse uma arma real. A mãe soube do episódio pelos vídeos compartilhados na internet e procurou as autoridades. O Conselho Tutelar foi acionado, e a Polícia Civil e o Ministério Público do Rio Grande do Norte passaram a apurar as circunstâncias do caso, incluindo a natureza do objeto e a responsabilidade dos adultos envolvidos.
Também no domingo (4), a deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC) comemorou sua reeleição exibindo um chicote, conhecido regionalmente como relho. A parlamentar recebeu 560.223 votos, a maior votação já registrada para a Câmara dos Deputados em Santa Catarina. Em imagens divulgadas nas redes sociais, ela aparece percorrendo ruas de Florianópolis com apoiadores e golpeando o asfalto com o objeto. Zanatta afirmou que o relho fazia referência a uma expressão regional usada para descrever uma vitória expressiva e negou intenção de ameaçar alguém. O chicote, no entanto, carrega forte simbolismo associado à violência da escravidão no Brasil.
Na segunda-feira (5), o deputado federal reeleito Cabo Gilberto Silva (PL-PB), que obteve 267.142 votos, concedeu entrevista à Rádio Arapuan, em João Pessoa, na qual usou a ascensão do nazismo na Alemanha como referência para explicar o fortalecimento eleitoral da direita brasileira. O parlamentar afirmou que a atuação do Supremo Tribunal Federal, especialmente as punições relacionadas à tentativa de golpe de Estado, estaria produzindo um sentimento de humilhação entre apoiadores de Jair Bolsonaro, e mencionou o tratamento imposto à Alemanha após a Primeira Guerra Mundial e o ressentimento que teria favorecido o crescimento de Adolf Hitler. Cabo Gilberto também defendeu o impeachment do ministro Alexandre de Moraes e, questionado pelo jornalista Luís Torres, negou estar equiparando Bolsonaro a Hitler.
Embora tenham ocorrido em contextos distintos, os episódios colocaram a violência, ou sua representação simbólica, no centro de manifestações políticas. Isso não significa que seus protagonistas tenham defendido a prática de violência ou que os casos integrem uma ação coordenada. A repetição dessas imagens e discursos, porém, oferece elementos para examinar como formas de intimidação e agressividade podem ser normalizadas na vida pública.
Esta matéria foi publicada primeiro em Pragmatismo Político e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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