Agronegócio quer políticas mais perenes para enfrentar juros, clima e Custo Brasil
O agronegócio, que responde por cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, vive o que a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) chama de “tempestade perfeita”. De um lado, as exportações somaram US$ 133,6 bilhões nos nove primeiros meses do ano, alta de 5,5% na comparação com o mesmo período do ano anterior. De outro, o setor convive com juros altos, custos de produção elevados, entraves logísticos, um cenário internacional mais protecionista, tensões geopolíticas e mudanças climáticas.
Para a Abag, o desafio é transformar a força do setor em desenvolvimento para o país, com mais produtividade, competitividade e valor. “O Brasil precisa deixar de pensar apenas na produção agropecuária e avançar na integração entre campo, indústria, serviços, ciência, tecnologia e mercados”, afirma a entidade em nota. Segundo a associação, a agenda precisa se tornar política de Estado, com planejamento, metas e continuidade, e não um conjunto de medidas pontuais de cada governo.
Na avaliação de Alexandre Mendonça de Barros, sócio de agronegócio da EY, o maior problema do agro está na conjuntura econômica, por causa dos juros altos e do endividamento do setor. Ele lembra que houve forte alavancagem no boom agrícola entre 2020 e 2022, quando a taxa básica de juros chegou a 2% e depois subiu até os atuais 13,75%. No primeiro trimestre de 2026, a inadimplência no agro atingiu o maior patamar da série, em 8,8%, segundo a Serasa Experian. A saída, diz, seria um ajuste fiscal que permita a queda dos juros e uma renegociação mais sustentável das dívidas.
As mudanças climáticas também pressionam o setor. Segundo a Abag, a cobertura do seguro rural caiu de 16,3% da área cultivada em 2021 para 3,3% em 2025. Barros avalia que o mercado privado não consegue montar sozinho um sistema de larga escala, porque catástrofes climáticas atingem vários produtores ao mesmo tempo e elevam o risco para as seguradoras. A saída apontada é uma subvenção estatal forte aos prêmios, processo que leva tempo: nos Estados Unidos, foram cerca de 40 anos para construir um sistema que hoje protege em torno de 80% da produção. No Brasil, o tema é debatido há mais de 15 anos sem uma agenda sólida.
No mercado externo, a Abag defende ampliar e diversificar destinos e se preparar para o acordo Mercosul-União Europeia, que trará novas exigências ambientais. Barros cita a necessidade de avançar na “regionalização de eventos sanitários”, para que embargos internacionais fiquem restritos à região de um eventual foco de doença, em vez de fechar todo o país. O setor também cobra mais inovação no campo, com inteligência artificial, biotecnologia e soluções biológicas, e critica a demora na aprovação de novas tecnologias, que pode chegar a 10 ou 14 anos. A Abag pede ainda concessões em rodovias, ferrovias, portos e energia, segurança jurídica e a correta implementação da reforma tributária para reduzir o Custo Brasil.
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