A crise global que Flávio Bolsonaro ou Lula terão de enfrentar se eleitos
O próximo presidente do Brasil vai assumir o cargo em um cenário internacional mais complexo do que o atual, segundo análise do economista Otaviano Canuto, professor da Elliott School of International Affairs da George Washington University e ex-vice-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Para ele, o alinhamento ideológico de cada candidato não elimina as tensões com governos que, em tese, seguem a mesma linha política.
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam três desafios imediatos na agenda de política externa: reconstruir a relação com os Estados Unidos; encontrar uma posição pacífica na competição entre Washington e Pequim, "sem ser capturado nem por um nem pelo outro", nas palavras de Canuto; e tentar reorganizar a coordenação política e econômica em uma América do Sul fragmentada.
No caso de Lula, os analistas avaliam que ele enfrentaria uma relação ainda mais conflituosa com a Casa Branca de Donald Trump. Canuto afirma que, se o presidente americano já usou instrumentos de coerção com objetivos transacionais, como as tarifas de importação, também poderá usá-los para acessar terras raras e minerais críticos e para tentar restringir investimentos chineses na infraestrutura brasileira. Lula também perderia o que muitos veem como seu maior aliado na Europa, o presidente da França, Emmanuel Macron, que deixará o cargo em maio.
Já uma eventual vitória do senador Flávio Bolsonaro lhe daria ao menos dois anos de proximidade com os Estados Unidos trumpista, além de vizinhos latino-americanos ideologicamente próximos que chegaram recentemente ao poder, como José Antonio Kast, no Chile, Abelardo de la Espriella, na Colômbia, e Rodrigo Paz, na Bolívia. "Se o desafio de Lula seria reagir a Trump, o de Flávio seria como materializar a agenda, interna e regional, que a Casa Branca espera de um Brasil alinhado aos EUA", diz Canuto.
O professor Vinícius Mariano de Carvalho, do King's College de Londres, descreve o atual padrão geopolítico como "surrealpolitik", uma torção do conceito de realpolitik. "O presidente eleito pode esquecer qualquer ideia de ter relações lógicas com os outros países", afirma. Para Feliciano de Sá Guimarães, diretor do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), Flávio enfrentaria o mesmo dilema de Lula, "porque ele obrigatoriamente teria uma relação funcional com os EUA". Ainda que a família Bolsonaro tivesse, de partida, uma relação positiva com os americanos, essa gestão tenderia a se deteriorar a longo prazo, com pressão de Trump por um afastamento da China.
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